Tenho mais pena de pé de advogado do que de mãe de réu em tribunal de júri. Esses coitados, que nos levam a todos os lugares, são diariamente espremidos em sapatos apertados, desconfortáveis, sufocados em meias horrorosas e couro vagabundo. Por que as pessoas não conseguem compreender que os pés sustentam todo o peso do nosso corpo e da nossa alma, e que para desempenhem bem a função, necessitam de carinho e sapatos decentes?
As pessoas acham bonito dizer que têm um armário cheio de sapatos, mas muitas vezes o que se encontra é um amontoado de porcarias, onde um ou dois realmente valem a pena o uso, quando os quarenta e nove restantes merecem a lata de lixo. Não há desculpas para sapatos ruins: gaste um pouco mais de tempo e de dinheiro, mas encontre um par que REALMENTE acomode os pés sem escravizá-los. Eis os mandamentos da lei dos sapato do advogado:
1) Só existe um modelo de sapato masculino para advogados: é de couro liso, de amarrar. Não há desculpas. Não há alternativas. Não adianta inventar. 
2) E em duas cores: preto ou marrom escuro. Não existe cinza, não existe azul-marinho (é sério, já vi esse absurdo). Pela última vez, esqueça aquele temebroso mocassim na cor “caramelo”. Só cantor de pagode usa sapato caramelo. Assista ao Raul Gil e veja se estou mentindo;
3) Pelo amor de Deus, camurça é um material inexistente no armário do advogado por dois motivos muito sérios: não dá para engraxar (e sapato de advogado dura MUITO tempo) e não aguenta uma chuva (e quem garante que você não vai passar pelo dilúvio na saída do fórum?);
4) Couro não lasceia – isso é mentira de vendedor, querendo lhe empurrar o último par do estoque. Gaste um tempo escolhendo o sapato certo, para não ter de se lembrar dele durante o dia, muito menos dos machucados que ele pode lhe trazer;
5) Sola de couro ou de borracha? Depende das suas funções. Os estagiários e advogados que fazem muito serviço externo devem optar pelas de borracha, que duram mais e protegem dos escorregões na rua, embora sejam mais pesados. As solas de couro são indiscutivelmente mais leves, mas já ri muito com vários tombos que alguns desavisados levam, principalmente em locais cujo chão é de mármore. O saudoso Pinheiro Neto só usava sapatos com sola de couro, mas ele tinha um arsenal de bengalas para ajudá-lo…
5) Dois pares de sapatos de qualidade indiscutível já resolvem todos os seus problemas. E para tê-los por muito tempo, é só cuidar deles sem neuroses. Engraxe pelo menos uma vez por semana, deixe-os tomar um arzinho, sem deixá-lo ao sol (mancha e estraga para sempre o couro), e não se acanhe em visitar o sapateiro para trocar o salto ou a sola. Coisa boa dura muito tempo, economiza dinheiro e tempo;
6) Por último, meias combinam com a cor do sapato (sapato preto, meia preta) ou com a cor da calça (meia cinza com calça cinza). As meias precisam ser compridas o suficiente para que ninguém veja os pêlos das suas pernas quando você estiver sentado (ficou muito feia a foto de um ministro de tribunal de última instância, envergando suas grossas e peludas canelas). Eu dou preferência sempre às de algodão, que absorvem o suor e dão bem mais confortáveis (toda vez que vejo meias de material sintético lembro do Julio Iglesias, que adora usar meias tão finas que parece ter sussupiado as suas do armário da sua esposa). Meia branca é para fazer esporte, e de tênis: só o Michael Jackson usava meia branca com sapato, mas ninguém o classifica como um ícone de elegância. Ah, você se acha no direito de usar meia branca porque usa terno branco? Você é bicheiro ou fazendeiro de cacau? Por último, só o João Paulo Diniz usa sapato sem meia; mas ele é o herdeiro do Pão de Açúcar, e não tem patrão, nem precisa montar uma carteira de clientes. Não é o nosso caso, certo?
As mulheres têm mais liberdade de modelos e cores. E é essa liberdade que me assusta. Dá para contar nos dedos das mãos (ou seriam dos pés?) as colegas que REALMENTE sabem combinar a seriedade das roupas com a elegãncia e conforto que os pés exigem.
1) Está um calor infernal. Posso usar sandália?
Uma olhadela mais atenta e você vai ver: quase noventa por centos das mulheres mostram os dedos dos pés. É horrível falar isso, mas nem sempre os dedos dos pés são coisas bonitas a se mostrar. A advogada precisa fazer uma auto-avaliação muito sincera da natureza do seu trabalho, da postura a ser mostrada para os colegas e da beleza dos seus pés para decidir se usa ou não os dedos de fora. Entendo que moramos num país tropical e que nossos tão sofridos pés sofrem com o calor; mas devemos lembrar que dedos à mostra ficam expostos à sujeira das ruas, e que o saldo pode significar pés imundos e cantos das unhas encardidos. Eu me pouparia disso. Quer um conselho sincero? Se você trabalha o tempo todo no escritório, pode usar um modelo peep toe (na tradução em inglês, dedo de fora, o que significa que é um modelo fechado, onde só o dedão fica de fora), mas num dia de muito calor, e com as unhas feitas. Em trabalhos externos, use sapatos fechados, sempre. Em todos os casos, deixe os modelos abertos para os momentos de lazer.
2) Que tipo de salto é mais recomendado?
Sapatilhas de saltos baixos são confortáveis e elegantes (se você assiste ao Bom Dia Brasil, notará que a elegantíssima Renata Vasconcellos está sempre usando as suas, combinando com ternos impecáveis), mas exigem calças mais justas e dão um ar mais inocente à produção, e nem sempre a inocência combina com a determinação que nos é exigida. Os saltos finos são lindos de se ver, mas raramente aguentam uma jornada de oito horas de trabalho ou mais. Dê preferência aos saltos médios ou altos, desde que mais grossos.
3) Posso usar botas?
Pode, desde que siga regras básicas. Com saias retas no joelho (por amor à sua profissão, não ultrapasse a linha do joelho, tanto para cima como para baixo), use modelos justos de cano alto, mas de couro sólido e em preto ou marrom, de salto médio e grosso (qualquer coisa fora disso vai parecer a Julia Roberts em “Uma Linda Mulher”, e tenho certeza que você não quer ser confundida com uma profissional do amor). Calças de lã ou de terninho aceitam muito bem botas de cano médio ou alto, mas sempre por dentro das penas, nunca para fora. Evite os modelos muito enfeitados, cheios de tachinhas ou rebites escandalosos, bem como as de cano curto, muito difíceis de combinar. Quanto à botas pata de bode, recuso-me a comentar, pelo absurdo que representam.
4) Que modelo de sapato combina mais com o visual de advogada?
Os escarpins de salto médio são os modelos mais corretos: confortáveis, sérios sem serem “caretas”, admitem uma vasta gama de cores e materiais. Os modelos chanel, de tiras no tornozelo e abertos na lateral, com o calcanhar fechado, também são boas opções, e ficam melhores se combinados às meias (preto com meia preta, marrom com meia marrom), para não engordarem os tornozelos. Os de modelos sabrina, de tiras finas no calcanhar são bonitos, mas precisam ser bem escolhidos, pois podem machucar se a tira estiver muito apertada. Sapatilhas de salto baixo são lindas, porém exigem ternos com calças secas ou cigarretes, o que pode não favorecer as mais cheinhas. Definitivamente, esqueça os tamancos (o barulho que fazem é insuportável, fora que expõem calcanhares mal-cuidados), sandálias abertas e de tiras finas, chinelos (já vi gente que queria entrar no fórum usando havaianas) e sapatênis (só admissíveis se você tem dificuldades motoras ou passou dos setenta).
5) Meias e sapatos: como combinar?
A regra é quase a mesma para homens e mulheres: sapatos marrons e pretos exigem meias no mesmo tom. As meias cor-da-pele são um coringa, mas tenho várias ressalvas contra elas (os tons são quase sempre horríveis e elas tendem a nos envelhecem uns dez anos). Ora, já tenho de me vestir com sobriedade, não preciso ser uma matrona para ser levada a sério. A solução que encontrei foram as meias cor-da-pele, mas no tom opaco, ou no modelo arrastão, tão muído que mal se percebe. Dá para usar com sapatos de tons diferentes (vermelho, verde musgo, bege), dão às pernas a elegância necessária e cobre uma depilação não-feita ou vasinhos que não precisam ser revelados, sem transformar a advogada numa vítima da moda. Meias mais elaboradas, com riscos verticais ou rendas, também são boas opções, mas exigem roupas com poucos detalhes e sapatos lisos. E no calor, só dá para dispensar as meias se as pernas forem de uma beleza irretocável, com músculos em ordem, pele hidratada e depilação em dia.
6) Trabalho o dia inteiro e no fim do dia meus pés estão me matando. Existe algum sapato que canse menos meus sofridos pés?
Quase sempre, o cansaço é culpa dos bicos muito finos, que espremem os dedos dos pés. Ou das tiras finas no calcalhar, que cortam a pele e exigem band-aids na bolsa. Ou de solas e saltos muito finos. Eu falo por mim, que sofri o pão que o diabo amassou até entender a fisiologia dos pés e como aliviar os males que lindos sapatos podem causar. Como qualquer mulher, sou enlouquecida por sapato, adoro modelos novos e quebro a seriedade de tailleurs sisudos e terninhos comportados com sapatos bonitos. Mas hoje não sacrifico a qualidade do meu trabalho e da minha saúde em prol de saltos mais finos que arame e modelagens torturantes. Quase sempre uso saltos altos (ora, tenho 1,57m de altura), mas grossos, que podem suportar buracos na rua e asfaltos mal-cuidados (sim, caro colega, certa vez foi obrigada a comprar um All Star de cano alto para conseguir chegar ao meu destino sem gritar de dor, após enfiar meu salto agulha num buraco na rua, tente não rir ao ler isso). Aproveito que os bicos redondos estão na moda, e escolho modelos que acomodem meus dedinhos com decência. E na hora da compra, prefiro o couro fino e mais molinho, que se adapta às medidas do meus pés. Por último, uso palmilhas de silicone, que se pode encontrar em qualquer sapataria, que conseguem trazem mais conforto a solas finas (o certo seria usar sola plataforma, mas há poucos modelos realmente bonitos com esse tipo de sola). E pelo menos uma vez por semana tiro minhas abençoadas sapatilhas do armário.
Sempre há alternativas que aliem o conforto à beleza, à elegância à seriedade que nossa profissão exige. Basta ter olhos atentos, um dose considerável de inteligência e pensar sempre que, quando o assunto é moda para trabalho, menos é mais, e menos é sempre o melhor.